A Espada de Luís Mouzinho de Albuquerque ferido na Batalha de Torres Vedras

05 novembro 2020

A 16 de outubro de 1940, Augusto Maria Lopes da Cunha, formado em Direito pela Universidade de Coimbra e notário diretor da Secretaria Notarial de Torres Vedras, sita na Rua Paiva de Andrada, deslocou-se ao Asilo de São José, no sítio da Conquinha, para reduzir a instrumento autêntico o depoimento de Estefânia de Jesus, aí residente.

Nesse instrumento, que está disponível para consulta no Arquivo Municipal, Estefânia de Jesus, solteira, com setenta e quatro anos e natural de Vila Facaia, na freguesia do Ramalhal, declarou que “deseja imprimir ao que vai referir, toda a verdade e certeza”. Assim, perante as testemunhas Mário Galrão, proprietário, e José Augusto d’ Almeida Trigueiros, comerciante, contou que aos vinte e nove anos foi prestar serviços domésticos numa casa no Largo de São Pedro.

Essa casa, sita na atual Rua Almirante Gago Coutinho, onde funcionou até recentemente o café A Brazileira de Tôrres, era a habitação de Dona Maria da Conceição Barreto de Bastos onde, em 1892, foi fundado o Asilo de São José. Estefânia de Jesus deixou registado o “que sempre ouviu dizer à sua Patroa”: o oficial do exército Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque foi levado para aquela casa após ter sido baleado no castelo de Torres Vedras, aquando da Batalha de Torres, uma batalha sangrenta onde terão morrido dezenas de homens. Mouzinho de Albuquerque nasceu em 1792 e, ao longo da sua vida, foi desempenhando diversos cargos militares e políticos que o tornaram uma das grandes figuras da primeira metade do século XIX. Foi ministro do reino, da justiça e da marinha, governador da Madeira, coronel de engenharia, provedor da Casa da Moeda, inspetor-geral das Obras Públicas e membro da Academia de Ciências de Lisboa.

A 19 de dezembro de 1846, era então Ministro do Reino, chegou a Torres Vedras com o Conde de Bonfim para preparar a Batalha que travariam a 22 de dezembro contra as forças do Marechal Duque de Saldanha. Ficou responsável pela defesa do Castelo de Torres Vedras, mas acabou por ser baleado. Após horas de agonia no hospital de sangue instalado na Igreja de Santa Maria, foi transferido para a casa da família Bastos, onde viria a falecer no dia 27 de dezembro, pelas 7 horas da tarde, como atestam os documentos da época, apesar do seu óbito apenas ter sido registado pelo padre da Paróquia de São Pedro, António Joaquim de Abreu Castelo Branco, a 28 de dezembro. Deixando viúva Dona Ana Mascarenhas de Ataíde, faleceu aos 54 anos e foi sepultado, depois de receber todos os sacramentos, na Igreja de São Pedro, em Torres Vedras.

A par do depoimento, foi também entregue uma fotografia onde Estefânia de Jesus pousa junto à espada utilizada em combate por Mouzinho de Albuquerque. Deixada na casa da família Bastos, a espada esteve anos à guarda do Asilo de São José, mas posteriormente foi transferida para o Museu Municipal, estando atualmente em exposição aberta ao público no Centro de Interpretação das Linhas de Torres Vedras, localizado no Forte de São Vicente.

No Arquivo Municipal de Torres Vedras, além do documento e da fotografia, estão também disponíveis para consulta uma imagem alusiva à Batalha de Torres Vedras; uma relação das quantias que ficaram de espólio dos militares falecidos no hospital; pedidos de informação sobre o destino dos militares que deram entrada no Hospital da Misericórdia de Torres Vedras; tabelas com a identificação dos corpos, companhias, números, posto, nome, a data em que foram abonados pelo hospital e observações sobre os doentes militares que estiveram no hospital; uma relação dos feridos que faleceram no Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras desde o dia 27 de dezembro de 1846 e seus espólios; uma relação nominal dos oficiais e praças que deram entrada no hospital e quando saíram; o registo das despesas com os militares da Batalha; e uma planta do campo da Batalha de Torres Vedras.